Pular para o conteúdo principal

Os tesouros históricos do Mestre Romão


Só existem duas coisas no mundo para vencer as dificuldades, o estudo e o trabalho. Com este conselho do pai, Romão Vieira de Sousa, 84 anos, construiu um exemplo de amor a terra Bragança. Nascido em Patalinho no dia 18 novembro de 1930, este bragantino que mora no número 100 da Travessa Aluísio Ferreira, bairro do Perpétuo Socorro, mesmo afastado da escola por questões de necessidades pessoais, jamais abandonou o seu interesse pela leitura, tornando-se por insistência própria numa espécie de pesquisador autodidata. “A professora disse que eu tinha vocação, já o meu pai disse: tu não vais para o estudo, mas vai para o trabalho, eu não gostei, mas não respondi, então papai me mandou tomar de conta dos gados, das roças e das canoas, e eu fui, trabalhei duro, na pesca e na agricultura”, afirma.

Casado com Dona Almerinda Barbosa Vieira, 80 anos, com quem teve dezessete filhos,

Mestre Romão foi delegado sindical rural durante dezoito anos, atuou como Comissário de polícia por dezesseis, anos e foi fiscal de imposto, durante 14 anos. Por várias vezes, sentiu o gosto de viajar na Maria-Fumaça e desfrutar da linha férrea Belém-Bragança. E aproveitou os seus deslocamentos profissionais para as colônias, praias e campos também para conversar com pessoas e fazer anotações sobre estas localidades, que visitava. Quando chegava a casa, organizava os rascunhos e, de memória, fazia novas anotações além de caricaturas e de desenhos que representam as habitações e locais mais importantes destas vilas e povoados.

“Desde 1944, comecei a visitar as comunidades que Bragança tinha, visitei duzentas e tinta e seis até localidades até 1980, fiz as caricaturas e os desenhos das áreas marítimas, áreas de colônia e as de campo, fiz mapas quase fiéis, no local, ou, de cabeça, quando chegava a casa”, explica, folheando as páginas amareladas de diversos cadernos que ele guarda carinhosamente no escritório, em sua casa. Mestre Romão mostra anotações e desenhos, enquanto conta estórias e histórias para professores, estudantes e curiosos que lhe pedem auxílio quando o assunto é Bragança. Mas o problema é que toda esta sua produção intelectual, textual e pictórica não é acondicionada em locais adequados e pode se perder. Gentil, ele deixa qualquer pessoa manipular os seus cadernos. Questionado sobre esta fato, ele, simpático, sorri e diz: “se perder, perdeu”.

E assim, página a página, desenho a desenho, ficamos sabendo como tudo começou e os principais acontecimentos de comunidades como Taperuçu Campo, Tamatateua, Caratateua, Campo de baixo, Comunidade Bom Jardim, Urubuquara, Cajueirinho, Tracuateuazinho, e praias como a do Grilo, a praia do Esquece, a do Carla, do Pilão, do Peru, Chavascal, Quatipuru Mirim, Marinha, Lago do povo, Maçarico, e dezenas de outros rincões onde moram bragantinos muitas vezes esquecidos do Poder Público.

Mestre Romão faz questão de puxar à excelente memória para narrar fatos que são uma verdadeira preciosidade para a História de Bragança: “Conheci muitas comunidades e praias, aqui não tinha nem barco geleiro, ia lancha daqui buscar o peixe e a gente é que secava o peixe”, afirma Mestre Romão, que, entre tantas histórias, evoca a do Pajé Severo Trajano, de Bacuriteua, e a da “matinta-perera” da Vila de Ajurusaca.

Ele faz uma observação histórica sobre o fato de Bragança perder os seus territórios, primeiro, diz, porque os intendentes abandonaram Viseu, e, depois da derrota de Augusto Corrêa para César Pereira, perdeu-se a Vila de Urumajó (que mais tarde se tornou Augusto Correa), e, na sequência, a Vila de Quatipuru; Aurélio do Carmo esqueceu Primavera, o prefeito Antônio Barros abandonou Santa Luzia e João Mota abandonou Tracuateua.

“Eu vou as sessões da Câmara e escuto notícias de rádio, Bragança completou vinte e seis prefeitos com o Padre Nelson, e eu só não conheci quatro, porque vinte e dois prefeitos eu conheci, e acompanho o trabalho deles, anoto e deixo por aí, mas quero fazer um trabalho com isso”, finaliza.



TEXTO © TRIBUNA DO SALGADO / FOTO © DRI TRINDADE



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A última postagem da Tribuna do Salgado

Independente, combativa, crítica, sem rabo preso, sem financiamentos de partidos e de grupos políticos e empresariais, TRIBUNA DO SALGADO fez um bom combate, mas já cumpriu o seu papel, razão pela qual informo que este projeto editorial deixará de existir, objetivamente, no dia 31 de Março de 2020. O lançamento oficial da primeira edição (impressa) do Jornal TRIBUNA DO SALGADO aconteceu numa sexta-feira, dia 25 de abril (2014), no espaço Adega do Rei, em Bragança do Pará, tendo o projeto funcionado com reduzida estrutura desde a fundação, com algumas preciosas colaborações,   de abnegados amigos e parceiros. De equipe reduzida, sempre foi um David contra os Golias da opressão. Privilegiamos temas como cultura, cidade e comunidade, sem espaços para textos e imagens apelativas como sexo e violência, que infestam como pragas as consciências humanas. Nosso lema, a liberdade de expressão, o respeito à opinião, e à crítica dos leitores, sem, jamais publicar boatos ou acusaçõ...

#INÉDITO "Nasce a primeira escola de poetas do Brasil"

Fundada nesta sexta-feira (24/3/2017), a Escola Poética Literária Bragantina Dom Miguel Maria Giambelli terá cerca de 40 alunos. Os futuros poetas vão estudar cerca de 20 disciplinas, durante dois anos, e publicarão a sua produção literária em livro, via Academia de Letras do Brasil - ALB-BRAGANÇA. A Escola de Poetas é inédita no Brasil, foi idealizada pelo memorialista e presidente regional da ALB, professor José de Ribamar Gomes de Oliveira, e a sua direção será exercida pela professora Lena Cláudia Amorim. De acordo com a gestora, a escola pode e deve ser um lugar onde a aproximação com a poesia deve acontecer de forma livre e espontânea. As aulas ocorreram nas escolas parceiras. Os alunos e os professores da Escola de Poetas serão selecionados via edital público, entre as disciplinas ofertadas pela grade curricular estão: Teoria Linguística; Leitura e escrita literária; Ortografia e Gramática; Análise e Estética; Literaturas, brasileira, paraense e bragantina. Orig...

#PAULINHA “Tumor cerebral ceifa vida de criança no Município de Bragança”

A súbita morte de uma criança de nove anos   deixou Bragança abalada. Ocorrido no dia 25/3/2017, o fato trouxe tristezas aos seus pais, parentes, amigos em Bragança do Pará. Seu enterro foi um momento de grande emoção, mas também de reflexão. Paulinha estudava na Escola Santa Terezinha. Há cerca de dois meses, ela começou a sentir sintomas de dores de cabeça. Depois, apresentou mãos trêmulas, e dificuldades em se equilibrar. Além disso, passou a ter dificuldades em articular as palavras. Seus familiares a levaram ao Hospital Santo Antônio Maria Zacarias, que a mandou de volta para casa, com a recomendação do exame “Tomografia”. Mas o exame não foi realizado, os sintomas evoluíram, e, em cerca de vinte dias, mais uma vez, ela foi encaminhada ao mesmo hospital (22/3). No dia 24/3, realizou uma tomografia, com laudo assinado pelo Dr. Antônio Marcos Gomes, do serviço de Radiologia e Diagnóstico por Imagem do HSAMZ (CRM 8208). O exame revelou presença de massa ...