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Cachaça, a paixão nacional de Bragança


As culturas tradicionais nos ensinam a respeitar aos mais velhos porque eles são os guardiões do conhecimento e tem muitas histórias para contar além e diversos ensinamentos para passar as novas gerações. Assim são processados muitos ciclos culturais artesanais e a cachaça, feita a partir da cana de açúcar, segue este mesmo traçado milenar, com os segredos sendo narrados normalmente de forma oral de pai para filhos. Assim sendo, fazer cachaça de qualidade e de forma artesanal é quase que uma missão épica. Ainda mais num município carente como Bragança que há muito abandonou a cultura da cachaça. Mas, na contramão das adversidades, uma família do bairro Perpétuo Socorro produz um excelente produto, desde o plantio, a colheita, a moagem, a fermentação, a destilação, o envelhecimento, o engarrafamento, a distribuição e a venda.

É, Bragança já produziu cana-de-açúcar, mas as políticas econômicas mudaram e com elas os ciclos e as culturas agrárias. Quem persistiu, acabou desistindo pela falta de apoio. E mesmo agora com os altos impostos, fazer cachaça de boa qualidade ou é teimosia ou prova de amor ao trabalho e a própria vida. É o caso do Senhor Manoel Veríssimo, 66 anos, há 40 anos no ramo da produção e venda do produto. Casado há 40 anos com Dona Maura Luzia da Silva Rodrigues, 58 anos, já sabia de sua dura sina. O casal e o filho Marcos Veríssimo, 40 anos, são donos da marca “Caeté”, pela qual comercializam, além da cachaça, licores de diversos sabores, entre os quais maracujá, abacaxi, jenipapo, acerola e cupuaçu.

Manoel Veríssimo nasceu na colônia de Benjamim Constant, de onde, com sete anos de idade, veio para o núcleo urbano de Bragança. Como faz questão de dizer, ele se criou na cria de cana, trabalhou com Urbano Gardunho, a sua função nas casas de engenho era tocar os bois que moviam a moenda, chegava de madrugada, lavava a forma, mas nunca teve acesso aos segredos de produção. Depois, trabalhou como motorista e mecânico, até que, em 1988, comprou uma propriedade rural e resolveu mexer com cana. Ele queria fazer uma cachaça que desse gosto de tomar, que seja boa de beber e sem aditivos químicos: “Busquei um produto diferenciado, e, para começar, tive que comprar cursos, passei quatro anos pesquisando e trabalhando num alambique pequeno, até chegar a um padrão”, esclarece.

Veríssimo, o pai, afirma que passou quatro anos pesquisando porque queria um produto diferenciado desde a hora de plantar a cana até a hora de degustar uma suave cachaça, feita com produtos de novas tecnologias. Ele diz que buscou financiamento bancário e que precisou de um laudo da Emater para isso. Com um custo de produção em média entre R$ 6 reais ou R$ 7 reais por litro, e com altos impostos por causa do tipo de produto, no caso o álcool, que gera dependência química, as cachaças mais econômicas que aliás são as mais consumidas pelo público, são verdadeiros venenos: “O povo não conhece cachaça de verdade, e a nossa, o papudinho nem bebe”, diz.





Produção - A cachaça “Caeté” pode ser comercializada em qualquer parte do Brasil. Marcos, o filho, afirma que todo mundo que toma, aprova a cachaça, tanto é que eles recebem encomendas diversas de Castanhal, Belém, e Brasília. Eles também já levaram o produto para stands, em feiras regionais, mas os maiores compradores são turistas: “O pessoal daqui não tem muito poder aquisitivo e tem dificuldades para pagar R$ 40 reais, o litro da especial (envelhecida em barril de carvalho e canela), e R$ 20 reais, o da comum”, explica.

A família tem uma propriedade próximo Ramal do Tatu, passando a estrada do igarapé do Ferreira. E lá que eles trabalham a cana, em cuja plantação utilizam, como adubo, o esterco de carneiro. O ciclo começa em Setembro e prossegue até Dezembro. Marcos ensina que a produção cresce com o verão e que este ano vai dar muita cana-de-açúcar. Depois da colheita e descarregada, a cana-de-açúcar é rigorosamente lavada para que seja moída e dela retirado o caldo, que é coado e colocado nas dornas de fermentação.

Seu Manoel e o filho Marcos usam o “pé-de-cuba”, um fermento natural feito a partir de cerais, que vai formar as leveduras que transformam o açúcar do caldo de cana em álcool. Marcos ensina que o pé-de-cuba é preparado para obrigar a garapa fermentar em 24 horas (antes de azedar), então, saindo da fermentação, passa-se ao alambique, para separar o álcool da calda, ferve-se, retira-se o etanol (10%), e depois separa e apara o coração, ou seja, a cachaça boa.

Todo o processo de produção da Cachaça “Caeté” é artesanal. A família recicla litros, que são esterilizados (a 129º graus), onde o produto é colocado (as rolhas são adquiridas em fortaleza), para que seja embalado e posteriormente vendido aos consumidores.



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TEXTO © TRIBUNA DO SALGADO / FOTO © DRI TRINDADE

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